-Publicação sobre Carolina Maria de Jesus.

Artigo – Carolina vive em São Paulo a experiência inquietante da modernidade, ao colocar em xeque seus princípios tradicionais de ordenar o mundo, é obrigada a viver um processo de individuação, de autonomia que é transformado em seu desafio de sobrevivência. As sensações de abandono, de solidão, de não poder contar com nada ou ninguém a não ser com seu próprio corpo são definidoras de sua experiência que engendra seu sofrimento social. (GONÇALVES, 2014, p. 07).

Para falar de Carolina Maria de Jesus, me apropriei de alguns conceitos vindouros de Marco Antonio Gonçalves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em seu artigo Um Mundo feito de papel: Sofrimento e estetização da vida (Os diários de Carolina Maria de Jesus).

Carolina Maria de Jesus nasce em 1914 e falece em 1977, aos 62 anos, nascida e criada em Sacramento interior de Minas Gerais, experiência sua vida nesta cidade até os vinte e três anos de idade, ali aprendeu a ler cursando até o segundo ano primário. Aos vinte três muda-se para a cidade de São Paulo para começar a trabalhar como empregada doméstica, morando em cortiços na área central da cidade, mas eis que esta região precisa passar por uma reforma e Carolina aos 34 anos muda- se para a favela do Canindé.

A partir de então nasce uma outra faceta de Carolina Maria de Jesus que temos a honra de apresentar para vocês.

Carolina trabalhou como empregada doméstica de um casal de médicos, durante suas folgas, solicitava para permanecer na casa e utilizar a biblioteca. Carolina gostava de viver a vida através dos livros. Na favela passou a se dedicar a profissão de catadora de papelão e nas horas vagas e amargas começou a se dedicar a arte da escrita, desta forma passou mais da metade da sua vida engajada em escrever sua realidade, aliviando assim seu sofrimento. Soube fazer da arte da escrita, sua amiga, sua psicóloga, sua comida, sua arma, seu poder.

Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade. (JESUS, 1960, s/p.)

Ao se apropriar da escrita, registrou o processo histórico do qual ela e todos aqueles que vivenciavam a favela do Canindé na capital paulista se encontravam. Sabiamente Carolina, fez da literatura sua moeda de troca, fez da sua história, da sua corporalidade, da sua criatividade e imaginação seu ganha pão.

“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar, eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário” (JESUS, 2007, p. 195). Carolina Maria de Jesus transformou seu corpo em sua história, sua história em seu corpo, dando forma, a não um corpo “coisa” ou um corpo “objeto”, mas sim, como diria Merleau-Ponty (1994, p.51), um corpo linguagem, que é gesto, movimento, é desejo, é sensibilidade, historicidade e expressão criadora. As palavras de Carolina não mudavam o mundo, mas o registrava, e criava um universo particular do qual se tornou sua mola propulsora para continuar a viver.

“… As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenha a impressão que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo” (JESUS, 2007, p.38).

Carolina não sabia do feminismo, mas a cada escrita se empoderava, sua curiosidade e consciência política, racial e de classe a tornava maior. A prática da vida demonstrava que as vezes era muito mais grandiosa do que a formação acadêmica, pois mais do que a grade que o estudo nos enquadra, Carolina Maria de Jesus tinha em si, as necessidades básicas de sobrevivência, que a impulsionava a vontade de escrever/ de se transformar e de transformar a realidade a sua volta, dando luz a estética realista que Vigotski e Lukács evidencia em suas obras.

A arte como a ciência, é momento vital desse processo emancipador de apropriação, de subjugação da realidade, para torna-la posse permanente da espécie forma progressiva de autoconsciência. (LUKÁCS, s/ a, p.64).

Carolina acreditava no empoderamento da arte, pois ela sabia que através da sua escrita poderia mudar sua situação econômica, o seu desejo estava pautado na ação impulsiva de relatar sobre suas vivencias e esta impulsão a levou ao mundo esperado. Segundo Sarti (2011, p. 56-57), “Carolina, em seu diário, constrói, exemplarmente, sua condição de vítima, não enquanto objeto passivo de uma violência social sofrida, mas como vitimização agentiva, aquilo que dá inteligibilidade a seu sofrimento”.

Carolina Maria de Jesus não foi uma mulher estudada/graduada e muito menos nasceu de uma família com rentabilidade, mas Carolina aprendeu e desenvolveu durante toda sua vida o poder da autonomia, poder este que vem de um processo contínuo e diário, pois a autonomia não é algo que se dá, é algo que se desenvolve, faz parte do processo da construção do vir a ser, permeia a sustentação das avaliações das circunstancias como critérios e valores.

Porém, ter autonomia e se emancipar psicologicamente e socialmente não foram critérios suficientes para que Carolina Maria de Jesus se mantivesse reconhecida pela sociedade, os brasileiros não souberam lidar com a contradição de uma negra/ favelada ser uma escritora tão concisa, tão empática, estabelecedora de catarse, dominadora da estética artística realística.

Carolina denunciava em suas obras que tinha certeza de que as palavras não mudariam o mundo, mas que elas poderiam contá-lo, criá-lo e recriá-lo, e assim ela o fez, para conseguir viver, ou ao menos, sobreviver. Esta mulher sabia da importância de teu corpo, da tua cor, do seu cabelo e retratava em sua obra está consciência política- racial e de classe, mesmo não sendo estudada, Carolina Maria de Jesus materializava a sua história e a história da cidade em seu corpo, este ser do corpo, como diria Boesh (1991, p.55), ”que já estava no alicerce das práticas em questão, evidenciava a bidirecionalidade da relação corpo-mundo, em que o corpo se constrói no agir e no ser agido simbolicamente”.

Carolina Maria de Jesus nos demonstra uma força engrandecedora do poder do desenvolvimento da autonomia, que através da escrita se livrou das dores físicas e psicológicas, das torturas quanto mulher, mãe, pobre, negra, sem estudo, sem alimento muitas vezes para oferecer a si e a seus filhos. Quanto mais Carolina se apropriava da sua relação corpo história, mais determinação ela obtinha, mais a concretude do que desejava se materializava, mais vida ela criava para seu corpo se fixar nas histórias.

Ao publicar o quarto de despejo/Concretizava assim o meu desejo/Que vida. Que alegria/[…] No início veio admiração/O meu nome circulou a Nação/ Surgiu uma escritora favelada/[…] Eu era solicitada/Eu era bajulada/[…]Depois começaram a me invejar/[…]/E assim eu fui desiludindo/O meu ideal foi regredindo/Igual a um corpo envelhecido/Fui enrugando, enrugando/pétalas de rosa murchando, murchando/E… estou morrendo!/[…] Não levo nenhuma ilusão/ porque a escritora favelada/foi rosa despetalada. (JESUS, 1996, p. 151-153).

A brasileira Carolina Maria de Jesus nos prova a importância das artes através do seu modo de escrever e contar suas vivencias, este dinamismo evidencia o quanto a arte era sua mola propulsora para o desenvolvimento de sua autonomia e quanto esta autonomia a levava a emancipação psicológica e social, pois vale ressaltar que Carolina Maria de Jesus publicou seu livro Quarto de despejo, em 1960, livro este, que se tornou sucesso no Brasil e no mundo todo. Carolina deixou a favela do Canindé e por um período de sua existência foi uma das escritoras mais comentadas e geniais de sua época.


Uma homenagem a todas as mulheres que se inseriram nesta vida como protagonista, que lutaram em busca de sua emancipação e multiplicaram para outrem, para todas que através das artes deram voz a sua psique e de sua comunidade, e a todas que ainda estão por vir a se descobrir/
desconstruir/ construir/ transformar.


-Carolina Câmara é psicóloga escrevendo no mês da mulher

Artigo escrito por Carolina Câmara psicóloga clínica em Botucatu (SP).

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