
Quarenta anos depois da formatura, integrantes da XIX Turma retornaram à Faculdade de Medicina de Botucatu para uma cerimônia simbólica. Foto: Riv Melo.
Há reencontros que não cabem em uma fotografia. Eles carregam os anos vividos, os caminhos percorridos, as pessoas que permaneceram e também aquelas que, embora ausentes, continuam ocupando um lugar na memória. Foi com esse espírito que integrantes da XIX Turma da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), voltaram ao campus em agosto de 2026 para celebrar os 40 anos de formatura.
Formada em 1986, a turma reuniu cerca de 90 médicos. Quatro décadas depois, aproximadamente 60 deles participaram da comemoração, vindos de diferentes lugares e trazendo consigo histórias profissionais, famílias constituídas, perdas, conquistas e uma amizade que resistiu à passagem do tempo.
A cerimônia foi organizada pela própria faculdade, com o apoio de uma comissão criada especialmente para a celebração dos 40 anos — distinta da comissão responsável pela formatura de 1986 — e transformou o retorno a Botucatu em uma viagem afetiva ao início de uma trajetória que, para cada um, seguiu rumos próprios sem apagar a origem comum.
De alunos a médicos — e de volta ao começo
Em 1986, eram jovens diante de uma profissão que ainda se abria à frente. Muitos eram solteiros, ainda tinham os pais por perto e mal podiam imaginar onde a Medicina os levaria. Em 2026, retornaram como profissionais com quatro décadas de experiências, muitos acompanhados pela história de filhos, netos e famílias que nasceram enquanto a vida seguia seu curso.
O contraste entre passado e presente apareceu em cada detalhe. Fotografias antigas devolveram rostos, gestos e cenas de uma juventude compartilhada; as imagens atuais mostraram o mesmo vínculo atravessado pelo tempo. Mais do que recordar uma formatura, o grupo revisitou o período em que aprendeu a ser médico — e, junto com isso, construiu relações que ultrapassaram os limites da universidade.
Muito antes das estolas, dos diplomas e das carreiras que cada um construiria, havia também a vida compartilhada fora das salas de aula e dos corredores do hospital. Registros daquele período, como a fotografia da turma reunida em uma cachoeira e a de um encontro descontraído entre os colegas, preservam a espontaneidade de jovens que ainda não sabiam exatamente aonde a Medicina os levaria. Quatro décadas depois, essas imagens deixam de ser apenas lembranças universitárias: tornam-se o retrato de um tempo em que muitas das amizades celebradas no reencontro de 2026 ainda estavam começando.

Registros da época de faculdade mostram momentos de convivência da XIX Turma antes da formatura de 1986.

Entre estudos, encontros e momentos de descontração, começavam a se construir amizades que atravessariam quatro décadas. Fotos: arquivo da XIX Turma.

Em 1986, durante a solenidade de formatura, integrantes da XIX Turma prestam o juramento que marcaria o início da vida profissional. Foto: arquivo da XIX Turma.
A programação incluiu uma cerimônia simbólica, momentos de convivência, visita a espaços do campus, confraternização e um gesto destinado a permanecer: o plantio de um ipê-amarelo. Ao lado da muda, a identificação resume o sentido daquele retorno: “De volta ao começo… XIX Turma – Faculdade de Medicina de Botucatu – 1986-2026”.

Integrantes da XIX Turma junto ao ipê-amarelo plantado no campus como marco dos 40 anos de formatura. (Foto: Riv Melo).

A placa instalada junto ao ipê-amarelo registra a passagem da turma: “De volta ao começo… 1986-2026”. (Foto: Riv Melo).
Entre os documentos preservados daquele tempo está também o convite de formatura da XIX Turma. Com a inscrição “Doutorandos 86”, suas páginas guardam nomes, homenagens e detalhes de uma solenidade que, naquele momento, representava a despedida da vida universitária e o início da trajetória profissional daqueles jovens médicos. Revisto 40 anos depois, o convite ganha outro significado: deixa de anunciar apenas uma cerimônia e passa a ser parte material da memória de uma geração.

Convite original da formatura da XIX Turma da Faculdade de Medicina de Botucatu, em 1986, preservado quatro décadas depois como parte da memória do grupo. Foto: arquivo da XIX Turma.
Uma carta de 1986 atravessa quatro décadas
Entre tantos momentos do reencontro, uma homenagem ao patrono da turma, Prof. Dr. Marcello Fabiano de Franco, deu à cerimônia uma dimensão especialmente emocionante. Falecido há nove anos, Marcello havia sido escolhido patrono pelos formandos de 1986. Naquele ano, porém, já tinha programada uma temporada acadêmica no Texas, nos Estados Unidos, e, antes de viajar, deixou uma carta datada de 5 de setembro de 1986 para os alunos.
A mensagem começava com uma despedida: “Agora me vou”. Marcello dizia que, no período anterior à formatura, estaria com os estudantes “de coração”, compartilhando as alegrias, as dúvidas, os últimos encontros e a expectativa pelo futuro. Chamava a turma de carinhosa, alegre, participante, interessada e vibrante, e dizia que aqueles jovens haviam conquistado seu afeto e lhe dado a condição de “amigo e irmão”.
Então escreveu palavras que, quarenta anos mais tarde, ganhariam um significado que ninguém poderia prever: “Vou e na verdade não vou, fico. Vou e penso em voltar. Vou e vou voltar.” E prometeu: “Tudo farei para estar na Formatura”. Marcello conseguiu cumprir a promessa em 1986 e esteve presente na solenidade. Quatro décadas depois, a mesma frase voltaria a emocionar a turma de outra maneira.

Carta deixada pelo Prof. Dr. Marcello Fabiano de Franco à XIX Turma antes de sua viagem ao Texas, datada de 5 de setembro de 1986. Uma cópia foi entregue a cada integrante durante a celebração dos 40 anos. (Foto: acervo dos participantes).
“Vou e vou voltar”
Na cerimônia de 2026, Marcello voltou.
Não fisicamente, mas por meio da memória e da tecnologia. Em um vídeo produzido com recursos de inteligência artificial pela Agência Carti, a imagem do patrono apareceu no telão e, com voz gerada por IA, transmitiu o conteúdo daquela carta escrita em 1986. Para quem conhecia a história, o desfecho ganhou uma força singular: o professor que havia prometido fazer de tudo para estar na formatura estava, de alguma forma, novamente diante de sua turma.

Em homenagem produzida com recursos de inteligência artificial pela Agência Carti, o patrono Marcello de Franco voltou simbolicamente à cerimônia por meio do telão, transmitindo o conteúdo da carta de 1986. Foto: Riv Melo.
A homenagem não terminou no vídeo. Uma representação em tamanho real do patrono permaneceu junto aos antigos alunos e apareceu nas fotografias do encontro. Na cerimônia, cada integrante recebeu também uma cópia da carta original. O documento que um dia fora uma despedida tornou-se, 40 anos depois, prova concreta de permanência.
A frase “vou e na verdade não vou, fico” parecia, enfim, ter encontrado uma segunda leitura. Marcello partiu, voltou para a formatura de 1986 e, décadas mais tarde, mesmo já falecido, esteve outra vez entre aqueles alunos — agora médicos com uma vida inteira de histórias para contar.

A representação do patrono aparece ao centro da turma durante a programação comemorativa, reforçando sua presença simbólica no reencontro. Foto: Riv Melo.
O que permanece depois de 40 anos
O tempo alterou quase tudo ao redor daqueles jovens de 1986. A Medicina avançou, novas tecnologias transformaram diagnósticos e tratamentos, carreiras foram construídas em diferentes especialidades e cidades, e a própria vida apresentou suas inevitáveis mudanças. Mas alguns vínculos permaneceram reconhecíveis.
No reencontro, as solenidades dividiram espaço com abraços demorados, conversas interrompidas pelo riso, histórias que um começava e o outro completava e a alegria quase juvenil de estar novamente entre pessoas que conheceram uma versão de cada um que já não existe — mas que, de algum modo, continua ali.

A comemoração também teve espaço para a alegria e a descontração: quatro décadas depois, a turma voltou a celebrar junta. Foto: Riv Melo.
A confraternização mostrou justamente isso. Fora das formalidades da profissão, eram novamente colegas. A camiseta preparada para a celebração dizia: “XIX — 40 anos depois e ainda juntos”. Poucas palavras seriam capazes de sintetizar melhor o que aqueles dias representaram.
Talvez seja essa uma das particularidades dos grandes reencontros: eles não devolvem o passado. Devolvem, por alguns instantes, a sensação de pertencimento a ele. E permitem perceber que a história construída em comum não desaparece quando cada pessoa segue seu caminho; ela apenas passa a morar em outros lugares.
Um ipê para o futuro
Ao plantar o ipê-amarelo no campus, a XIX Turma deixou mais do que uma lembrança de sua passagem. Deixou um símbolo vivo. A árvore que agora começa a crescer em Botucatu atravessará estações, ganhará raízes e, no tempo certo, florescerá. Talvez alguns daqueles médicos retornem para vê-la maior. Talvez futuros estudantes passem por ela sem conhecer todas as histórias que existem por trás daquela placa.
Mas ali permanecerá uma marca: em 1986, um grupo de jovens deixou a Faculdade de Medicina para começar a exercer a profissão. Em 2026, parte deles voltou ao mesmo lugar carregando quatro décadas de vida. Voltou para celebrar quem se tornou, lembrar quem já partiu, reencontrar quem caminhou junto e agradecer à escola onde tudo começou.
E, assim como escreveu Marcello de Franco tantos anos atrás, talvez a melhor definição para o que aconteceu em Botucatu seja justamente esta: ir e, na verdade, não ir. Porque há lugares, pessoas e histórias dos quais nunca se parte por inteiro.

De volta ao campus: a XIX Turma da Faculdade de Medicina de Botucatu celebra 40 anos de uma história iniciada em 1986. Foto: Riv Melo.
Crédito das imagens: arquivo da XIX Turma / acervo dos participantes / Riv Melo
Vídeo-homenagem ao Prof. Dr. Marcello de Franco: Agência Carti.
Riv Melo | Jornalista





