Herbert Claros, representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Embraer, diz que a empresa está desnacionalizando a sua produção o que pode causar desemprego em cidades como Botucatu.

“A diretoria da Embraer está no comando de um grave processo de desnacionalização do setor aeronáutico, abrindo caminho para o desemprego de milhares de trabalhadores brasileiros. Apesar de todos os benefícios fiscais e financiamentos recebidos do governo (como os programas de incentivo à exportação Drawback e Reintegra), a Embraer está transferindo parte da produção para México, Estados Unidos, Portugal, Cazaquistão, Argentina, Itália, China, Bélgica e Espanha. Ou seja, o que antes era produzido no Brasil e gerava emprego aqui, começa a ganhar carimbo internacional”, informou.

O representante dos trabalhadores esteve em Botucatu falando sobre o assunto junto ao sindicato dos metalúrgicos.

Segundo Claros, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos já comunicou o problema à presidente Dilma Rousseff, ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), ao governador Geraldo Alckmin e aos prefeitos de Jacareí e São José dos Campos. “Mas nenhuma providência foi tomada. Enquanto isso, as fábricas que fornecem peças para a Embraer e que têm planta no Brasil estão perdendo contratos e fechando postos de trabalho. E é exatamente com o nível de emprego que estamos preocupados”, cita.

“O Vale do Paraíba concentra 53% da mão de obra do setor aeronáutico brasileiro. São profissionais especializados que estão sendo descartados, ao passo que empresas norte-americanas e europeias assinam contratos bilionários com a Embraer”, cita.

Infelizmente, diz ele, “a Embraer traz um histórico nada louvável quando se trata de sua relação com os funcionários. Desde a privatização, em 1994, a empresa realizou três demissões em massa. A jornada de trabalho imposta pela empresa é a maior do setor aeronáutico em todo o mundo. A PLR (Participação nos Lucros e Resultados) paga pela Embraer é menor do que as de muitas fábricas que têm menos de 600 funcionários. Nas Campanhas Salariais, a empresa “esconde-se” em uma bancada da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e se recusa a negociar abertamente com o Sindicato”.

Embora se trate de uma empresa privada, o governo continua injetando dinheiro público na Embraer. Segundo dados da própria empresa, o BNDES financiou, entre 2004 e 2012, 18% do valor total das suas exportações em aviação comercial.

Ele continua: “Neste ano a empresa também anunciou a transferência da produção dos jatos executivos Phenom e Legacy para os EUA deixando bem claro a intenção de desnacionalizar a produção com único interesse de atender os interesses de acionistas. Essa transferência da aviação executiva para os EUA coloca em risco mais de 2.000 empregos diretos aqui no Brasil. Por tudo isso, é preciso ficar atento às estratégias usadas pela Embraer para garantir os lucros dos acionistas que vivem da especulação, formados principalmente por bancos de investimentos. O que está em jogo é uma história que levou quase cinco décadas para ser construída e que está servindo para abastecer de forma irresponsável o capital estrangeiro”.

“Sendo assim, a presidente Dilma e demais governantes têm de agir imediatamente para garantir a permanência do conteúdo nacional na cadeia aeronáutica do país. Não é apenas uma questão social, mas uma questão de soberania que não pode ser menosprezada”, finalizou.

Como Botucatu faz peças para aviões executivos a produção no exterior com fábrica nesses países do alvo de venda, pode haver desligamentos. No Brasil a empresa tem 17 mil trabalhadores, mas entre as contratações deste ano foram 1.280 sendo 788 no Brasil e 492 no exterior.

Em 2014 foram contratados 55 trabalhadores em Botucatu, contra 93 em Portugal e 300 nos Estados Unidos.

O sindicato quer que a empresa assine um documento que se compromete em contratar a sua mão de obra no Brasil.

Empresa nega desnacionalização

A Embraer informou “que não há qualquer “processo de desnacionalização do setor aeronáutico” em curso. A empresa tem 85% das suas receitas vindas de dezenas de países do exterior, mas 90% dos seus 19 mil empregados estão no Brasil (mais de 17 mil)”.

“A instalação de unidades de montagem final no exterior tem como principal objetivo aproximar a Empresa de seus principais mercados consumidores e, desta forma, gerar novas oportunidades comerciais, aumentando as vendas e assegurando que a Empresa possa continuar gerando empregos. Nesses casos, a produção de peças, partes e componentes que era feita no Brasil continua sendo realizada no País”, continua a assessoria da empresa.

“No caso específico da linha de montagem dos Phenom 100 e Phenom 300, a presença da Embraer é um movimento estratégico da Empresa para estar presente no maior mercado da aviação executiva em todo o mundo, que responde por cerca de 50% do mercado mundial – e onde seus concorrentes já estão presentes. Para cada emprego nos Estados Unidos, outros seis empregos são mantidos nas linhas de produção de peças, partes e componentes dos Phenom nas Unidades da Embraer no Brasil”, finalizou.