Desde o início da pandemia da Covid-19, há mais de 2 anos, diversos termos, antes restritos à comunidade científica, começaram a fazer parte da rotina da população. Como exemplo, notícias sobre as novas variantes do vírus SARS-Cov-2 podem preocupar e trazer dúvidas sobre o impacto dos rumos da pandemia.

As variantes são sequências genéticas virais que se diferenciam em uma ou mais mutações e, para identificar a existência de cada uma delas e a sua atuação, é necessário um processo de sequenciamento genético.

De acordo com a professora Rejane Maria Tommasini Grotto, responsável pelo Laboratório de Biologia Molecular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB) e docente do Departamento de Bioprocessos e Biotecnologia da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), o sequenciamento genético é uma tecnologia de biologia molecular que permite identificar o código genético de organismos. “Os primeiros métodos desta natureza foram aplicados na década de 1970, por uma metodologia descrita por Fred Sanger e Walter Gilbert”.

O Laboratório de Biologia Molecular do HCFMB em conjunto com o Laboratório Vectomics da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, câmpus de Botucatu, vem sequenciando, desde 2021, todas as amostras positivas para SARS-CoV-2 na Rede de Vigilância Genômica (Vigenômica), instituída pela reitoria da Unesp e que faz parte da Rede de Alerta do Estado de São Paulo, liderada pelo Instituto Butantan.

Segundo os Laboratórios, durante todo o ano de 2021, 8.534 amostras de SARS-CoV-2 foram sequenciadas. “Com o desenvolvimento tecnológico, a técnica utilizada hoje não é a mesma descrita por Sanger. Usamos hoje a tecnologia de sequenciamento em larga escala ou Next Generation Sequencing (NGS) que, com as plataformas atualmente disponíveis, nos permitem sequenciar genomas virais em um tempo muito curto”, afirma Dr.ª Rejane.

A especialista aponta que este processo não é realizado no HCFMB somente com o vírus responsável pela pandemia. “Já usamos o sequenciamento antes para sequenciar outros vírus, como HIV, ZIKA Vírus, hepatites virais, além de outras regiões genômicas humanas e de animais. Também usamos o sequenciamento para avaliar a população microbiana de solo, a fim de entender a sua influência para o ciclo do nitrogênio e enxofre dos vegetais crescendo neste ambiente”.

Como funciona o sequenciamento genético

A coleta da amostra é realizada utilizando swab naso (no nariz) e orofaríngeo (na parte da garganta logo atrás da boca), locais onde o vírus está. A partir deste material, o ácido nucléico (material genético) é retirado do interior das partículas virais num processo denominado extração ou isolamento do material genético.

Na sequência, o material genético é fragmentado em pequenos pedaços que, posteriormente, são amplificados (muitas cópias deles são formadas) e marcados como em um processo de inserção de código de barras, para identificar cada segmento. Só então o material vai para o sequenciador, que decodificará a sequência do genoma viral.

Após esse processo, análises de bioinformática são conduzidas para reconstituir os genomas que são comparados com sequências depositadas em bancos de dados públicos, que permitem a identificação de qual é a variante do vírus pelas assinaturas genéticas, ou seja, sequências específicas.

Dr.ª Rejane enfatiza a importância do sequenciamento genético para o combate à Covid-19. “A grande importância em saúde pública é o acompanhamento da pandemia em tempo real. Neste processo, conseguimos avaliar quais as variantes estão presentes na região e no Estado de São Paulo e em quais proporções, podendo, precocemente, identificar variantes que estão entrando na região e a sua prevalência, e avisar os órgãos de saúde competentes para nortear ações estratégicas no combate à pandemia”, encerra.