O atual cenário político está longe de seus dias mais calmos. Crises econômicas e sociais assolam o pais que é governado de maneira ilegítima, incapaz e impopular. Parte da esperança em uma mudança no quadro reside nas eleições de Outubro que, através de prévias e pesquisas, vêm construindo uma disputa polarizada ao entorno de dois candidatos, Lula e Bolsonaro, que além das siglas partidárias, aglutinam à sua imagem posicionamentos e atitudes específicas.

            Polarização político-partidária é algo recorrente na própria trajetória recente dos regimes democráticos, no entanto, os resultados atuais demonstram características binarias de uma concentração de forças opostas e divergentes, do lado certo e do lado errado da “coisa”. Atitude muito perigosa que, ao mesmo tempo que amortiza outros candidatos, visões e propostas, inflige noções básicas da semântica do próprio conceito político de democracia.

            O entendimento desse e de outros conceitos que circundam o tema é mais um claro reflexo desse caminho binário que a polarização atual proporciona. Com uma dicotomia que faz jus aos tempos de Guerra Fria – medo de ditaduras comunistas, e dos esquerdistas – bem como anômalos manifestos democráticos em prol da intervenção militar, deixam em nu confusões clássicas entre o que seria uma política de esquerda ou de direita e até deturpam a visão entre público e privado, aonde uma medida humanista ou social é vista como caridade e custosa ao Estado que, por sua vez, tem cada vez mais a perspectiva de empresa, de que deve ser tocada por um administrador em prol do bem singular. São pontos extremos que, quando tratados de maneira rasa e direta, ignoram uma infinidades de questões e debates de anos, tanto em âmbito nacional como internacional e prejudicam ainda mais a disputa.

            Um das possíveis soluções para tal cenário seria justamente a exposição dessas ideias, uma conversa, um debate com um conflito de propostas e conceitos divergentes, encarar a cena política em sua respectiva complexidade e com o respectivo alcance. Contudo, a projeção indica um caminho oposto. Até o dado momento preso e impossibilitado de participar dos debates – e também da eleição – o candidato do PT se encontra em um entrave criado pela própria política da ficha-limpa, sancionada em seu governo, o que de certo modo congela a notoriedade das propostas e do pontos de vista defendidos pelo candidato; Jair, por sua vez, vem evitando por escolha as sabatinas, buscando criar uma blindagem coesa com slogans de “não sou como eles” e “honesto”, uma estratégia antiga que isola a figura e a protege de possíveis insuficiências metodológicas, cristalizando a imagem desejada do candidato. Independente de forçado ou por escolha, o não debate que se projeta deteriora e agrava ainda mais a política nacional, empobrece argumentos e fomenta a aversão às discussões com reflexo direto nas relações pessoais do cidadão.

            A trama de herói e vilão, de injustiçado e justiceiro, trazem à tona cicatrizes da política nacional. Em prol da argumentação, do debate, da negociação, as forças políticas vêm, novamente, aglutinando-se em torno de figuras representativas, salvadores da pátria de discursos vazios e conceitos cristalizados. Quem mais perde com isso tudo, com a polarização binária da política do “não debate”, é o povo brasileiro que se encontra cada vez mais afastado do exercício da democracia e se entrega ao bel prazer da torcida por ídolos e bandeiras.