Com a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) a respeito do isolamento social como estratégia principal a prevenção de contaminação pelo coronavírus, as escolas, creches, e tantas outras instituições públicas e privadas foram fechadas ou tiveram seu fluxo de pessoas reduzido drasticamente. Devido ao isolamento social, as crianças/adolescentes acabam ficando o tempo todo em casa e aí podem surgir sinais/sintomas no decorrer do tempo, ou seja, quanto maior o confinamento, maiores são as chances de alguma alteração acontecer, mas isso não é uma regra. Com esse novo cenário, muitos pais estão tendo que se adaptar a uma nova rotina diária com seus filhos e isso tem repercussão direta na saúde mental das crianças e adolescentes, além, é claro, dos próprios adultos.

Em relação à saúde mental das crianças, os aspectos que os pais devem ficar atentos nas situações de normalidade, é observar se há alguma alteração no comportamento do filho(a), por exemplo, se este vem apresentando comportamentos, tanto dentro como fora de casa, que antes não ocorriam. Para isso os pais devem estar atentos aos filhos, praticarem a escuta empática e, de fato, olhá-los.

É muito importante ressaltar as questões de base preexistentes na criança/adolescente, e que, numa situação de crise como a que estamos vivendo, é normal que tais questões se agudizem, como por exemplo, uma criança mais ansiosa e inquieta, numa situação dessas onde se vê em casa o tempo todo, talvez fique mais agitada e ansiosa. Cabe ressaltar que, no geral, as crianças saudáveis do ponto de vista psíquico, tendem a ser mais ativas e não é natural que estejam muito quietas ou apáticas. Caso isso ocorra, é importante o diálogo entre pais-filho para que estes consigam identificar o que está acontecendo com a criança.

Para minimizar os efeitos do estresse psicológico que o confinamento produz nos filhos (tais como a ansiedade e problemas de sono por exemplo), é fundamental que os pais estabeleçam uma rotina para os filhos. Muitas escolas estão oferecendo a modalidade de ensino a distância (EAD) neste momento, outras não, e os pais devem ter uma participação ativa nesse processo. Cabe ressaltar que, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, essa modalidade de ensino não é recomendada para crianças menores de dois anos de idade. Nesse momento em que estamos confinados em casa, é importante que os adultos deixem claro aos filhos que esse período em que não há aulas presenciais não se caracteriza “férias”. 

É importante estabelecer uma rotina de estudo com eles, leituras de livros, quadrinhos, atividades lúdicas com os filhos em que estes possam expressar seus medos, anseios, desejos. Estimular que as crianças participem das tarefas domésticas para que elas se sintam participantes ativas desse momento. 

Para que haja uma relação saudável entre pais e filhos, especialmente nesse momento de isolamento social, os pais devem, primeiramente, procurar ter uma postura mais flexível consigo mesmos nesse momento. Os pais, muitas vezes, também estão em confinamento e tem que trabalhar em casa e isso se torna difícil com as crianças por perto. Por isso a importância do diálogo e do estabelecimento de acordos entre eles para que a criança saiba que, nos momentos em que os pais estejam trabalhando, que haja colaboração dos filhos. Cabe aos pais a reflexão de que, nesse momento, não há a necessidade de continuarem produtivos como noutros tempos, agora não é o momento, é por isso que os pais devem estar muito atentos à sua própria saúde mental.

Sabemos que a saúde mental dos pais é fator de proteção para os filhos e o aspecto emocional destes é muito influenciado pelo aspecto emocional dos pais. Nesse período de isolamento social, a família tem a oportunidade de estar mais tempo junta e então fazer mais coisas juntos (brincadeiras, atividades lúdicas, atividades domésticas, atividades físicas, comunicar-se por vídeo-chamada com amigos e parentes). As crianças geralmente gostam de contato físico com seus pares (amigos e familiares) com quem tem uma relação afetiva, e por isso, nesse momento em que isso não é possível, as crianças podem ficar mais ansiosas e incomodadas. É importante que os pais estimulem o contato social com familiares e amigos por vídeo-chamada por exemplo, para que os filhos não se sintam tão sozinhos nesse momento.

Informar as crianças a respeito do que está acontecendo nesse momento é importante, mas igualmente importante é evitar o excesso dessas informações que podem levar as crianças a sentimentos de ansiedade e medo. Crianças pequenas por exemplo, não tem a clareza de informações que os adultos têm, mas elas sabem que tem algo estranho acontecendo e é importante que os adultos não as subestimem. A criança capta olhares, tom de voz, a mudança de comportamento dos pais (por exemplo ao lavarem as mãos repetidas vezes e usar máscaras ao saírem de casa) por isso a necessidade de explicar aos filhos o que está acontecendo, falar das medidas de proteção, mas que estas orientações e explicações não sejam em tom alarmista, mas sim de asseguramento que é o que a criança mais precisa nesse momento. Práticas meditativas e corporais como Ioga podem sim ajudar as crianças nesse período, os pais podem estimular seus filhos a olharem mais para si e a refletirem o que podem aprender com esse período complexo pelo qual estamos passando. Os pais, assim como os filhos, também podem se beneficiar dessas práticas para que possam também cuidar de si.


por: Danilo Lima Tebaldi – psicólogo clínico do Centro de Saúde Escola (CSE), unidade auxiliar da FMB|Unesp – CRP: 06/78080